Para falar sobre divisão sexual do trabalho nós vamos trazer a pandemia da COVID 19, algumas mulheres passaram a realizar, o trabalho remunerado e o trabalho não remunerado no mesmo local, nas suas casas.

Em várias situações, o trabalho remunerado e o trabalho não remunerado passaram a ser realizados de maneira simultânea, tipo, estamos em uma reunião, com a criança no colo tentando dormir. Ou em alguns casos, nós estamos trabalhando em relatórios, preparação de aulas, participação de julgamento nos Tribunais e interrompendo fazer, nos intervalos, não pausas de descanso, previstas na legislação trabalhista, mas para lavar o banheiro, colocar roupa na máquina, fazer almoço e varrer a casa.

Aconteceu com vocês?

É a nova ordem da organização da vida econômica e social de várias mulheres.

E a gente já viu que a pandemia da COVID 19 foi como um raio, trouxe mortes, perdas e desenterrou problemas crônicos da sociedade.

A divisão sexual do trabalho foi um dos problemas presente na vida das mulheres, sempre foi pauta do movimento feminista, sempre foi tema de conversa nas redes de apoio das mulheres, estas rodas basicamente compostas por outras mulheres, é objeto de investigação em estudos acadêmicos.

E o que mudou?

Quando a gente se apresentava no local de trabalho, era como se não existisse o mundo do trabalho sem remuneração. A naturalização de que caberia a mulher realizar as tarefas não remuneradas do lar e do cuidado com crianças e pessoas idosas, doentes, esteve na base da origem de sociedades, de diferentes culturas. Os homens, pais, maridos, filhos, irmãos se apropriavam do trabalho da mulher, sem ter que remunerá-las para sua execução. É a base do Patriarcado. Que Heleieth Saffioti apontou como o primeiro sistema de Dominação Opressão. O Patriarcado foi aproveitado pelo capitalismo, na organização da produção industrial da contemporaneidade.

Flavia Biroli, autora contemporânea nossa, professora na UNB, no livro “Gênero e Desigualdade”, no capítulo primeiro trata da Divisão Sexual do Trabalho, vou ler um trecho:

“Quem tomaria conta das crianças? (e, podemos complementar, dos doentes, das pessoas com deficiência e dos idosos) – foi resolvido “em benefício dos homens”, lançando mão de uma “ideologia de gênero que precede o capitalismo”. Ativamente incorporada pelos capitalistas, mas também pelos trabalhadores homens. (…)

O patriarcado, como sistema político, consistiria numa estrutura de exploração do trabalho das mulheres pelos homens. Seu núcleo, nessa perspectiva, é a divisão sexual do trabalho, em que se configurariam dois grupos (ou classes): as mulheres, que têm força de trabalho apropriada, e os homens, que se beneficiam coletivamente desse sistema.

A distinção entre trabalho remunerado e não remunerado é, assim, um ponto central. O trabalho que as mulheres fornecem sem remuneração, como aquele que está implicado na criação dos filhos e no cotidiano das atividades domésticas, deixa os homens livres para se engajar no trabalho remunerado.”

Pensando no que a Flavia Biroli escreveu e trazendo para o meu cotidiano, poxa, os homens têm tempo livre para pelada, para jogos no computador, para coisas que eles gostam de fazer, para a diversão e ócio.

Pensando também, em várias rodas de mulheres que já participei, com mulheres de faixas etárias, raça e classes distintas e como é difícil para as mulheres responderem a simples pergunta:

O QUE VOCÊ GOSTA DE FAZER?

Muitas mulheres respondem brincar com os filhos, fazer comida, colocar uma toalha bonita na mesa, poxa é legal e válidas todas as respostas, mas muitas respostas vêm da naturalização das tarefas de cuidado e afazeres domésticos.

A complexidade da sociedade contemporânea enxertou mais sofisticação e mais marcadores de opressão no lugar e nas competências das mulheres.

Ora, alguém precisa tomar conta da casa, tomar conta das crianças, dos idosos, lavar, passar e a solução corriqueira no Brasil foi a criação da atividade remunerada de “EMPREGADA DOMÉSTICA”, que tem sua origem na colonização com as pessoas escravizadas, que desempenhavam estas atividades sem remuneração ou com baixa remuneração, e que passaram na sociedade atual do Brasil, a serem empregadas Domésticas.

Quem são as empregadas domésticas no Brasil?

As pesquisas mostram e a gente ver, são mulheres, negras, muitas em situação de vulnerabilidade social, com baixa escolaridade, que só tiveram direitos trabalhistas reconhecidos em 2015, com a PEC das domésticas. Muitas trabalham ainda hoje sem ter carteira de trabalho assinada. Estão na base da pirâmide social.

E trazendo de novo Heleieth Saffioti, quando ela observa o impacto na vida destas mulheres e como as mulheres se dividiram, com recorte de classe, Saffioti é cortante e maravilhosa:

“Se as mulheres da classe dominante nunca puderam dominar os homens de sua classe, puderam, por outro lado, dispor contra e livremente da força de trabalho de homens e mulheres da classe dominada.”

Pensando nisto, é evidente que o gênero não se configura de maneira independente em relação à raça e à classe, a conjunção entre capitalismo e patriarcado, posicionou as mulheres como um grupo social onerado pelo cotidiano de trabalho gratuito e precarizado.

E os marcadores de opressão raça/classe vão ganhando mais crueldade na vida das mulheres.

Eu mulher advogada, professora passei a trabalhar muito mais nas tarefas domésticas, elevando o número de horas de trabalho sem remuneração, gastando energia, ficando exausta, com lavar, arrumar, fazer compras, comida.

Impactando na minha atividade remunerada, passei a trabalhar de madrugada, final de semana para produzir o mesmo de antes da pandemia. Porque a minha rede de apoio, que eu contava com outras mulheres, pagas para realizar as atividades doméstica, foi desmontada para proteger à vida das outras e a minha. Digo que mantive o pagamento da diarista mesmo sem realização do trabalho, está gente, porque é direito, é ético e justo. 

Você pode dividir as tarefas da casa com filho e outras pessoas que morrem contigo, mas como você é colocada no lugar de que era sua responsabilidade desempenhar aquela tarefa, os filhos e outros moradores, sempre se reportam a você, e isso traz você para este lugar, o lugar da mulher.

É preciso reeducar este pensamento. Aprender. Ter empatia.

E  lembro de Mirtes, mulher empregada doméstica, que não teve a suspensão das atividades durante a pandemia da COVID, que continuou trabalhando, que teve COVID e continuou trabalhando, que se viu obrigada a levar seu filho de 05 anos para a casa que trabalhava e sofreu a perda do seu filho, porque a patroa, não pode deixar o filho de Mirtes trancado, enquanto Mirtes passeava com o cachorro da família.

Dai percebemos como a divisão sexual do trabalho impacta a vida de todas as mulheres, como hierarquiza as mulheres, estimula o racismo estrutural, retira ou limita a participação das mulheres na esfera pública e na participação da vida política e aloca desigualdade e privilégios em favor dos homens.

É preciso políticas públicas para promover ações afirmativas que removam o ranço do patriarcado, da apropriação e dominação do trabalho sem remuneração realizado pelas mulheres, e a precarização do trabalho das empregadas doméstica com recorte de raça e etnia, que teve origem na colonização.

É preciso descolonizar o trabalho da mulher negra.

Por fim, teria muito, muito mais para falar, mas quero dizer que, entendo esta problematização como a possibilidade de construir relações sociais harmônicas, com vínculos que passam pelo cuidado com todos. Penso que, os novos arranjos familiares e as novas mulheres podem construir dinâmicas para vencer essa opressão ao grupo social mulheres e entre as mulheres hierarquizadas por etnia, raça, classe.

O feminismo negro atualizando o feminismo liberal, para fazer todas as mulheres se enxergarem como pessoas autônomas, não como exploradoras umas das outras, que fazem escolhas na dimensão social, política, econômica. Mulheres emancipadas e felizes.

 Confrontando o lugar de dominação e de privilégio dos homens, que ficam sentados na sala, pedido petiscos e drinks as mulheres e aos filhos. Que tem o privilégio de priorizar a atividade remunerada, mesmo quando desempenhada em casa, como na COVID 19.

Que os vínculos afetivos não sejam construídos com os privilégios e que todos e todas sejam livres, felizes, amorosos, com cuidado consigo e com os outros. Sem dominação e opressão.

É meu sonho!

Beijos e obrigada pela companhia…

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